sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Cruzou-se os braços,
as pernas abandonadas,
a cabeça baixa.
O medo da espera,
daquela espera
por algo que não sabia.
Uma palavra,
uma deixa,
uma senha de liberdade;
mas apenas os joelhos lhe respondiam,
encalhados
na parede enegrecida.
Nem lembrava já o Sol,
a luz...
Só aquela sombra
que o embrulhava,
que o esmagava...

terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Partida

Lentamente,
ia-se consumindo.
Não tinha dores já.
Enrolava-se
sobre si própria,
a parede a esboroar-se,
do outro lado
o soalho
em vigas esburacadas;
A vida esvaía-se,
numa solidão morna.
Nem ousava olhar para cima;
Deus talvez a mirasse,
piedoso,
as mãos expectantes,
por entre as fendas do tecto.
Esperava passiva
que tudo se consumasse;
mas a dor,
aquela dor final
por que ansiava,
não irrompia nela.
(...)
Recordou-se então:
abriu os braços,
o queixo sobre o peito;
e nesse crucifixo,
assim partiu...

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Sol


O sol baixava
num horizonte equilátero,
espalhava-se,
quase quieto.
As águas,
os montes,
abraçavam-no,
em jeito de cor.
O marulhar,
as folhagens,
o passaredo,
todos o seduziam
num cair,
tão lento,
tão fugaz,
tão estrepitosamente vermelho,
num azul em fundo.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Solar

É em sóis que nos desnudamos,
na busca do calor
que nos veste de desconhecido.
É em sóis que procuramos
verdes folhas
que nos consolam
em pálidos arbustos...
Um mar iluminado
pelo triângulo solar,
engole-nos,
lenta,
suavemente.
Termina, pois,
a nossa busca...

domingo, 4 de fevereiro de 2007

Contentamento

Gostava de me espreguiçar,
assim preguiçosamente;
(num acordar meio nublado...)
e que as minhas mãos tocassem o céu,
os meus braços, o mar;
e sentisse o alegre aroma das flores,
esvair-se pelas minhas pernas;
e que a minha cabeça repousasse
sobre almofadas de nuvens...
e assim ficasse,
todo êxtase,
todo puro,
todo esquecido de mim...