quarta-feira, 28 de abril de 2010

antemanhã

(...)
os teus caminhos

descruzam-se;
já não regresso,
deixo a peanha vazia,
o altar escurecido,
as cinzas frias,
(de)votos já gastos;
nunca os deuses se emudeceram,
nem os acólitos sonharam
nas álgidas coxias do concílio;
(...)
um sorriso vago
de um fervor quási dormente,
guinava-se, cálido,
pelas fragas da antemanhã...









(editado em 14 de Abril de 2010, às 09:38

no site de marés, onde me inspirei)
(fonte da imagem:
http://insalatamiste.blogspot.com,
pintura de Claude Monet)

terça-feira, 27 de abril de 2010

já nada (...)

(...) espero apenas
a dor de me esqueceres;
as tuas ausências,
os teus silêncios
despertam apenas
vagos vazios,
vestidos de cactos vetustos,
de pálidos postes,
de vagas mordendo
os restos da praia,
num vaivém surdo
de velhas vacilantes.

(inspirado num poema de moriana publicado
no seu blogue)
(foto do autor obtida com telemóvel)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

azul

De tanto crer-me frouxo,
a minha vida soltou-se
em cristas de nuvens claras,
em azuis de épicas vagas,
em risos despertos de criança.

(fonte da imagem:

terça-feira, 20 de abril de 2010

e, assim, suave
não deixarei de te escrever,
entre gotículas de suspiros
e afrescos de Rafael
ou telas por cumprir;


talvez regresses
e tragas as cartas
embrulhadas em laços de beijos,
aguarelas arco-íris
desse teu sorriso límpido

(originalmente escrito em
31 de Março de 2010 07:43,
inspirado por moriana no seu
(fonte da imagem:

sábado, 17 de abril de 2010

a cruz de Torquemada





Mordeste todas as palavras,
todas as letras.

Teus olhos vertiam gáveas,
pousavam sobre todas as ravinas,
acima dos poços mendicantes.
O teu anel sorriu-te
num brilho vasto, demolidor:
tudo sabia e saberá:
executará a tua mão crua,
gelada,
conforme o seu querer.
Sim,
em cada gesto
o temor,
em cada palavra
a ansiedade;
e o teu anel brilhando,
dolente, sedutor,
marca as tuas horas rapaces,
oh santo Inquisidor!

quinta-feira, 15 de abril de 2010

eras

Eras fraqueza.
Tua pele macia
possuía-te no sangue
grato,
na visão da madrugada.
Parou o tempo,
as folhas voltaram,
a revolução trepou p'lo teu ventre
e girassolou
em promessas de vida.

(foto do autor tirada com telemóvel:
graffiti em Telheiras)

domingo, 11 de abril de 2010

atalho breve

Uma velha trajando ausências
percorre caminhos de suão,
vislumbra rostos, existências,
restos, rastos de rostos,
trilhos, atalhos, essências.


Caminha leve,
sorriso baço,
alegria breve,
breve o cansaço.


Talvez o sorriso terno,
as mãos soltas, abertas,
o olhar largo, materno,
envolvessem, entre risos,
vidas alvas, sólidas, despertas.
(foto do autor
obtida com telemóvel:
Conímbriga)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

vivace

Prostrado ante mim
o oceano:
vagas esquecidas
em andante prestissimo
numa memória subtil
de rittornello...

Ah vida!
Alvas mentiras,
algozes caídos,
ásperas vaidades!
(fonte da imagem:
http://www.redbeachslsc.com/)

domingo, 4 de abril de 2010

Finis













Não há eterno, já;
o infinito prometeu o vazio.
Já não vivemos:
as promessas
caíram em mãos indiferentes.
Já nem a tua voz
me leva à resposta.
As palavras doeram,
na ruína dos afrescos;
já não se (h)ouve um coração;
estradas solidárias,
gélidos carris,
não carregam
o vago sol da manhã.

Fugi;
da minha boca vazou-se o silêncio;
meus pés julgaram-se em atalhos,
em atalhos de bruma.
Não há fado,
sina,
o sempre.
Apenas uma luz fugaz,
entre dois palmos de fumo.

(fonte da imagem:
http://flickr.com/photos/kyramas)

sábado, 3 de abril de 2010

Oração


Arrasta, Senhor
na Tua Ressurreição,
todas as mortalhas
que me envolvem e
me afastam
dos Teus caminhos.
(fonte da imagem:

sexta-feira, 2 de abril de 2010

perdas

Nos umbrais da dúbia floresta,
saltitando pelas pinhas
que as fogueiras esqueceram;
subtilmente,
escorriam as urzes
submergindo as minhas penas,
os meus degredos,
os meus olhos
tão cegos de tanto ver!
Perdi as vistas
pela luz roxa,
entre os ramos:
vaidosamente,
digo,
num carisma atónito...


(fonte da imagem:
http://3ricko.wordpress.com)