domingo, 31 de outubro de 2010

limite

Que embaraço,
que tropeço,
que empeço,
esta palavra,
este empecilho,
este sujeito
sem predicados
sem modos
sem adjectivação!
Que termo sem fim,
que criatura
malina,
tão desacolhida,
tão áspera sem definição,
tão só,
cativante,
absorvente.
Interesseira,
nem se define,
ou se descreve.
É apenas 

"eu"

(fonte da imagem:

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Alcácer

Transfiguro os meus olhos:
quero-os setas,
transparentes,
caminhos de vitória;
quero-os baixos,
apontando
para o menos infinito.
Quero-os par de candeias,
par de luas;
Quero-os alinhados
em três sóis,
sistema planetário
de rios ainda por desaguar
(...)
Queria que uns olhos 
brilhantes,
brilhantes de cansaço,
maculassem os riachos
das praias caudalosas
de Alcácer-Quibir...
  (fonte da imagem:
http://downloads.open4group.com/)


terça-feira, 26 de outubro de 2010

queda XII

Uma palavra persigo,
faro em umbigo assente ;
a minha memória
já não regista a gramática,
pois a palavra é poente
entrando pela madrugada;
submerso pelo tempo,
o texto nem busca glossário;

os meus olhos nem sentem
as sobras de tempos vadios;
há frases que buscam os meus dedos,
nada encontram:
encarquilho-me pela fuga do sujeito.

Escrevo,
escrevo o que me ditam os olhos,
cegos da poeira viscosa
que se atravessa pelos corredores do tempo;
as distâncias alteram-se em "vês" de vitória
(ou vitupério);
debruço-me, enfim,
no balcão do devaneio:
o poema cintila,
fresco,
quase vida;
falta ser meu:
em acta lavrada,
papel assinado,
registo, escritura
por meu pulso firmado.
(fonte da imagem:

sábado, 23 de outubro de 2010

queda XI

Esmoreço-me,
semi-caio neste vale, 
nas falhas espraiadas,
no desespero gotejante de uma madrugada ácida.
Sussurram longe os poemas que não escrevi,
sôfregos de autorias que me escaparam
entre os meus dedos gastos por advérbios
sem modo,
por sujeitos sem qualquer complemento,
por verbos que nunca transitaram.


Já subjuguei os alfabetos, sim:
latinos,
árabes, até;
todos me cederam o que tornei meu:
as palavras dolorosas,
as palavras ostensivas,
as palavras dolentes,
as palavras-minhas-palavras assim erguidas.


Esperavam arte os que hoje atrasam,
entre soluços,
os castos ponteiros
das horas azougadas.


Sou deste vale de esperanças maculadas,
forjadas em mim,
restos piedosos de triunfos mal entrevistos!

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

queda X

Que fizeste do tempo que te hão consentido?
Que bafos respiraste,
que passos deste
para que teus sonhos se não completassem?
Praticaste o crime dos sem-memória,
daqueles que velam nas esquinas
transidos, apertados pelo ontem, pelo amanhã;
exumam  o hoje,
entre gargalhadas dispersas, cavas,
e cruzam os olhos nas distâncias,
nas paredes onde medras,
líquene,
musgo,
graffiti imaculado,
espelho curvo sobre ti mesmo...
(fonte da imagem:
http://ledali.com/page/1/salvador-dali,
Salvador Dali: "Persistência da memória)

domingo, 17 de outubro de 2010

espaços

Talvez haja silêncio,

no meio das palavras,
dos concílios.
Talvez o silêncio
jogue com os advérbios
de um modo inconsistente,
triste,
choroso, até.
Quem sabe se
uma faísca, um toque 
não será o vácuo puído
que cai entre as palavras
a que chamamos
barra de espaços...?

(fonte da imagem:
http://www.techonthenet.com/)

(inspirado num poema
de moriana publicado no seu blogue:
www.moriana2.blogspot.com)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

queda IX

Estão gastos, os sons;
formam-se placas tacteantes 
entre os meus dedos escorrendo amanhãs.
Não regressarei,
meu tempo vagueou entre geometrias desamparadas;
miro o ventre oco de um sorriso:
será o último passageiro a regressar,
até as minhas mãos hão-de mostrar-se lassas
ante os meneios hirtos de Pandora.

(fonte da imagem:
www.sou-varne.com;
Salvador Dali: "A mão (remorso)"

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

(...)

Contenho em mim quase o Universo,
fui parte do último que se extinguiu;
em solenidades pagãs fui incenso;
fui vela parda da primeira Descoberta;
volteei em bailes de salão;
fui naifa canalha em corte liso;
em vias (de facto) hoje sou:
caminho, estrada, atalho, rio desviante...













(fonte das imagens:

http://www.stoptherobbery.com e
http://www.astro.umd.edu)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Pan-(dor)-a


Cristalizaste os teus erros;
subiste a escarpa, velaste a madrugada.
Então,
rindo, 
sentada sobre o mundo,
funambulaste,
quási acrobata num trapézio baço,
exibindo o ouro dorido, a prata vaga,
num esgar de meias-noites ainda rubras.

Então, soltaste medusas
- e Pandoras das caixas -
 e a vacuidade porosa
foi, altivamente,
tomando conta das colinas,
dos montes, das falésias até,
num gesto largo de oração,
de desmedida reza suspensa...
(fonte da imagem: