segunda-feira, 28 de maio de 2012

pato

Comendo o pato,
comi-me a mim mesmo,
no meu palato
estavam duas bactérias ferradas,
esperavam restos de ave,
bem curtidas;
esse pato fora,
de fora, claro,
mas também fora o pato
que gizara furtivamente
as revoluções
que me tornaram grande,
com cognome e tudo;
portanto, esse pato fora
eu próprio,
enlevado no espírito
de uma revolta clássica;
há quanto tempo
haviam sido os dobres
a finados,
ou afinados?
Sei hoje
que as águas
já nada obliteram...
que os dias amanhecem
à sombra das palmeiras
que se dobram educadas
sobre um mar
azul-quase-turquesa;
sei, também,
que os patos que enfeitam
as paredes de um caçador,
são apenas objectos
que já nada assinalam,
pois a gula do pâté
já fugiu entre violetas!

(foto do autor
obtida com telemóvel:
Berlengas, Agosto/2011)

quarta-feira, 23 de maio de 2012

baú


Era um polvo com cinco tentáculos,
mais parecia uma estrela-do-mar.
Era uma expressão zangada
que um loiro falso ostentava.
Era um carro de Fórmula 1
incompleto e roliço.
Era um dragão azul
com uma loira falsa a cavalo.
Era uma bola velha
pintalgada de chutos e manha.
Era assim aquele baú
quando lhe abríamos a tampa;
e, de todos os baús do sótão,
era aquele que não precisava
de etiqueta ou marca:
a sua luz viva brilhava
com um jeito cristalino,
um sorriso que encantava
a doce infância sem tino!

(fonte da imagem:

quinta-feira, 17 de maio de 2012

águas

Embrulhei-me entre o ontem e o amanhã,
já nem as águas chegavam;
o cais estava deserto de risos,
de infinitas vozes,
e o mar ia lambendo
os restos de algas e de verde
que a memória alcançava.
Navegavam os meus sonhos,
e as carícias que emprestaram
ao riso que te envolvia;
e, assim, entre o ontem
e o amanhã,
num quase-alegre reboliço
pintalgava um alvorecer
que se ia erguendo,
por detrás das águas,
numa quietude transparente.
(foto do autor
obtida com telemóvel)

domingo, 6 de maio de 2012

a festa do Sol

Com um pedaço de noz
faço um barco,
lanço-me às águas
e, nas lantejoulas das ondas,
construo um baloiço
e encho-me de riso.
Tantas são as gargalhadas
que a noz torna-se cabaça
e o baloiço montanha-russa.
Então, num sorriso terno,
com um pedaço de luz,
o Sol espraia-se por mim,
pela cabaça,
pela montanha-russa
num Cirque du Soleil
em jeito de bruma e púrpura.


(fontes das imagens:
1ª http://playnwisconsin.com/pages/swingsets
2ª http://artsblog.dallasnews.com/archives/)
(publicado em primeiro lugar em 
"Momentos de escrita criativa")