sábado, 31 de agosto de 2013

rampa

Afasto-me,
os meus braços
nem procuram os teus.
Não é zanga,
qualquer reacção,
não é sequer dor,
aquela dor que dói
nas lembranças emergentes.
É uma parede,
uma armaria
cheia de pistolas
nunca usadas,
brilhantes 
no seu desalento,
é a vida,
e tantas essas coisas 
que nos vão desapegando.
Parede: construção a dois,
Armaria: acasalada a dois,
Vida: extinta a dois.
É no colo do adeus
que mais te encontro,
é no teu sorriso brando
que me descaem as memórias:
um poema meu 
(escrito e esquecido),
que me leste risonha,
gritos ao vento invernoso
que nos abraçava o abraço,
o caminho que insistíamos ser nosso,
palmilhado pelos banhistas a toda a hora...
Agora somos sorrisos desmaiados,
incolores.
Alforriado,
abraço o vazio,
os meus ombros,
a volta do silêncio,
o prazer, 
o conforto da mudez.
E é nos passos surdos,
na semi-obscuridade
que reabro um título:
"Os belos e os malditos".

(Foto do autor
obtida com telemóvel:
Castelo de Torres Novas)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

jogo de luas



Foi quando te vitrificaste
que me detive.
Paralisada,
entre os fetos,
naquele jardim de Inverno
que proclamavas teu.
Eras silicatos
que ardiam,
crepitavam
na noite
que se queria silenciosa,
mas cuja Lua
se esmerava nas marés
quase rompantes.
Brilhavas como nunca,
teus ombros oscilavam:
eram esmeraldas, eram opalas...
Havias estacado num triunfo de beleza,
num instante gelado,
tudo se decrepitaria a partir daí;
nunca te quereria ver anos depois,
serias, assim,
a juvenil, magnífica,
Vénus 
sem Botticelli,
seria assim que me perderia,
numa gazua 
expectante,
sem nada forçar,
a não ser a corrida da espera.
Nem ficaste indecifrável,
flor viçosa e corrente.
Apenas estatuária,
flor de sal,
nesse teu jardim de Inverno...

(fonte da imagem:

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

fusão

Quero que a ferida,
no seu esgar triunfante,                           
vá morar para lá longe,
perto do mar e 
que se dissolva, e
que se afunde
num esquecimento,
numa vaga absolvição,
de tal modo 
que a mão jurada
em gesto de cruz
se funda nas águas
afluentes...

("Caminha com as feridas
que o caminho te der,
não as poderás evitar,
mas é na sua cura
que aprenderás
que Deus, e o caminho,
te dão tudo o que precisares."
Fala de Paulo 
a Onésimo)

(foto do autor
obtida com telemóvel)