quarta-feira, 30 de outubro de 2013

K

Rol

Agora, já não há mais tempo
de encostar a cabeça,
de dizer ao vento: "Espera!",
já não é o tempo de tentar
e de procurar.
O aço,
o fulgor mate,
rodeiam-nos 
cerrando-se.
Nem nos arbustos,
nas ervas,
há o cuidado 
no amparo,
suspendem-se as bagas,
os espinhos para um dia.

A máquina prossegue,
rangendo na inclemência,
um brilho metálico brutal
que cega as mentes.
Já não há mãos dadas,
cânticos ou bandeiras,
agora é o tempo do chumbo,
do esquecimento,
das listas elaboradas,
mortas
nas manhãs sucessivas...

("Não deixeis que a Polis vos esmague.
Sede os Cidadãos que deveis ser,
estai à altura do que vos acontece.
De resto, a Democracia fluirá,
vitória do povo."
Fala de Péricles a Atenas)
(fonte da imagem:

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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

K

Hoje

Hoje,
proclamo o armistício,
o fim do pesadelo
e das mãos crispadas.
É o tempo das cerejas,
dos louros
e dos ramos de oliva.
É o tempo do sol,
dos risos luminosos
e dos abraços.
É agora
que descemos os penhascos
e molhamos os pés na areia;
sim, molhamo-los na areia,
abraçamos o vento
e cantamos na madrugada.

Hoje,
proclamamos 
o regresso!

(fonte da imagem:
http://balconyofdreams.blogspot.pt/2009/08/top-3-beautiful-fruit-trees-for-edible.html)

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

K

Dissertação

Bom amigo,
Saber que estás bem
É o que mais me conforta, sabes?
O resto… (tanto afinal) fica por dizer, na esteira do tempo, dos destinos humildes.
Calar é também lançar os sentidos, as memórias, afagar verdades (e mentiras…).
Até lavar os cestos é vindima, diz o povo,
Ser, no tempo, o além-gente, o retorno a nós: digo eu na incerteza dos trilhos inacabados.
Tempo é um bem que se esgota ligeiro,
De camadas feito, esgueirando-se de viés.
Falar é esquecer, partir, fundir-se no tecido do início…
(publicado em
77 palavras, com obrigação
de respeitar o provérbio)
(fonte da imagem:
http://appacdm-lisboa.pt/author/appacdm/)

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

K

Paisagem com crise em fundo

Ao estender os olhos,
alonguei-me,
na esperança
do dia novo
que me prometiam
havia tanto tempo...
Mas era nas fissuras,
escorrendo-se,
espreitando,
que a garganta 
intumescia,
se exarcebava
no espectáculo do poder,
desculpando o desastre.
Fui sentindo um chão 
deslizante,
que me arrastava
(talvez para o menos infinito),
os meus pés resvalando
num caminho cego,
números pulsantes,
num vórtice insano...
Era a preto e branco
a paisagem que me envolvia,
um fumo enxaguante,
arrastando todos,
restos de comentários
políticos
esvoaçavam sem tino.
Era esse siso
que se perdera 
em artes de guerra
e confronto...
Foram sobrando as pessoas,
os cidadãos, os metecos,
essas a quem os tempos
não haviam perdoado,
e que os carregavam,
como fardos inevitáveis,
assim o poder lhes havia
[afiançado...]

"Ignora os tempos de fartura,
sê prudente no que possuíres,
partilha com o teu vizinho
para que não te falte,
e não confies no Senado, no Imperador."
(Fala de Nemestrino, patrício ilustre
 a Penélope, sua filha)

(fonte da imagem:



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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

K

Fuga atarantada

Era mar,
era sossego,
na vista azul,
entre dois tons,
espreguiçavam-se as nuvens.
Tudo parecia certo,
até o vento soprava
em jeito de samba
sem notas.
Era, pois,
uma calma reluzente,
em que só as ondas
suspiravam.
Ao meio-dia,
entre bramidos estonteantes,
ergueu-se um monstro marinho,
escorrendo sal e pânico.
Nas fugas atarantadas,
ninguém viu um homem enfadado
de coleira na mão:
afinal o mostrengo não era de Pessoa,
era galhofeira múmia do Museu ali ao lado!
(publicado em 77 palavras)
(fonte da imagem:
Desafio nº 49 – história louca de férias!

"[...] Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, sou optimista até ao fim. Não digo como Kant que o Bem sairá vitorioso no outro mundo. O Bem é uma vitória que se alcança todos os dias. Até pode ser que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se a vitória não estivesse sempre do lado do Bem, como é que hordas de massas humanas teriam enfrentado monstros e insectos, desastres naturais, medo e egoísmo, para crescerem e se multiplicarem? Não teriam sido capazes de formar nações, de se excederem em criatividade e invenção, de conquistar o espaço e de declarar os direitos humanos. A verdade é que o Mal é muito mais barulhento e tumultuoso, e que o homem se lembra mais da dor do que do prazer."

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue! Sopro Divino

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