quinta-feira, 16 de outubro de 2014

profetisa



Cumpriste a profecia:
aos teus olhos
a poesia foi dispersa
e esparsa:
nas tuas mãos 
o romance verteu-se,
numa enxurrada
quase banal:
no teu colo
já não se abrigavam
sonetos ou contos.
Esmeraste-te:
as palavras foram-se
despindo,
as sílabas empobrecendo-se,
num tropel de fuga cega.

Trocistas,
alguns falavam numa "língua depilada."

Tu, profetisa da desgraça,
chamavas-lhe apenas
"Accordo Ortographico de 1990"



terça-feira, 7 de outubro de 2014

Elogio do esquecimento


front
Amo as árvores:
as suas sombras
ladeiam
a entrada escusa,
frondosa,
do meu jardim secreto;
é nos seus ramos
que envolvo memórias
e os ditos
que ainda me atormentam;
pelo seu tronco
vão ganhando asas
olhares distantes
presos aos sargaços,
às profundezas
de mares primevos.
Uma gota de sol
e uma aragem amena
banham-me um sorriso,
lágrima sem retorno;
hoje reclinarei a cabeça
na raiz dourada
de um sicómoro,
parente de aves venerandas

em céus já esquecidos.
("Caminha sempre entre a loucura e a coragem serena; nunca deixes que os ventos te desviem os olhos; apresenta sempre a mesma face aos teus iguais; assim, a tua vida que terá valido     a pena."
(fala de Constantino a Messala seu protegido)
JAIME A. é um pseudónimo que se esconde atrás de alguém que se
perde e se encontra tantas vezes, que o que escreve lhe serve também
de bússola. Os outros, no entanto, não se guiam pelos seus textos.
Jaime A. também ainda não percebeu que significado têm os seus 50
anos.

 Nota: poema publicado na VI Antologia dos Poetas Lusófonos com algumas alterações

(fonte da imagem: http://www.studyblue.com/notes/note/n/quiz-3/deck/6350451)