sábado, 28 de fevereiro de 2015

Olhos

Hoje, apeteceu-me o carinho
dos teus olhos.
Apeteceu-me o toque
dos teus olhos no meu pescoço,
nos meus ombros.
Apeteceu-me ainda mais
a carícia dos teus olhos 
nos meus,
o veludo da tua íris
a passear assim,
um rasto 
aterrando suavemente
por mim acima,
perdido talvez 
nos sussurros das árvores,
recuando até aos deuses
que nos foram esquecendo,
na sua truculenta escapada.
Talvez hoje a brisa dos teus olhos,
o teu devoto cuidar
sejam memórias sentidas,
apenas.


(também publicado no blogue
77 palavras de Margarida Fonseca Santos)

(Fonte da imagem:
http://www.slate.com/articles/technology/future_tense/2012/03/eye_tracking_computer_programs_and_privacy_.html)

sábado, 21 de fevereiro de 2015

aluguer

A máquina (facebook) pede-me que escreva alguma coisa, mas o orvalho, a geada, tolhem-me as mãos. As ervas estão brancas, lembrando a noite. Aquela colcha parece afagar o que está rente ao chão seria bela se não matasse.
Gosto do frio que rodeia as matas. Lembra-me a Escandinávia que não conheço, mas que fantasio. Lembra-me também que somos donos de muito pouco, que tomamos emprestado o que nos rodeia. Um dia, a nossa partida ou um fenómeno natural tudo arrasará não deixando sequer memória da natureza ou das nossas construções.
Quem sabe os nomes dos seus trisavós? Não estiveram por cá há muito tempo, ninguém sabe já quem foram. Como será com cada um de nós?
Para mim, é um exercício de humildade contemplar o que me rodeia, um exercício de relatividade em relação ao meu tempo, que nem sequer é meu: é um bem arrendado, tal como o meu corpo.
Tem algo a dizer, a replicar? Esteja à vontade.


NB 
Uma mulher sábia (não são apenas os homens que são sábios) confidenciou-me: 
"Se as formigas se extinguissem hoje, daqui a 50 anos a Vida na Terra teria desaparecido;
se a Humanidade se extinguisse hoje, daqui a 50 anos a Vida na Terra teria reverdecido."

(texto previamente publicado no facebook)
(fonte da imagem: n/a)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Inverno

É no Inverno que o orvalho brilha mais sobre a caruma espalhada. É no Inverno que o frio escorre por nós abaixo, que o Sol brinca entre as árvores. O bosque, a floresta, estendem-se ante nós, contrariando, na sua Paz, o fragor que todos quer engolir.
(entretanto, numa praia perto de si...)