quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Transversal complacência

É quando te olho,
nessa mudez altaneira,
nesse teu meio-sorriso
(assim mesmo,
hifenizado),
que a minha complacência,
de viés,
desliza por ti acima,
num quase-tango
(também hifenizado).

Podes semi-cerrar
(hifenizadamente)
os teus lábios,
podes virar a cara
(e o rabo de cavalo,
sem hífen),
que a minha complacência,
deslizará sempre 
por ti acima;
e mesmo que navegues 
o teu pedantismo,
pelas águas indiferentes,
a minha complacência
sempre te atirará
borda-fora
(nem o hífen
te livrará
do mergulho 
e do espalhafato).

Assim será.

(fonte da imagem:
http://dopepicz.com/69332842-movie-gone-with-the-wind-dresses.html)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Noite sem resposta



Noite de trovões,

de arruaça nos céus.

Uma casa destacando-se,

na sua pequenez,

no meio da cidade.

Por entre as árvores,

fui-me chegando,

as mãos tremendo no gesto;

gesto contido,

os dedos acariciando o vidro,

mais do que batendo.

Repeti,

a voz sussurrada

a acompanhar o chamamento;

respondia-me o fragor,

anulamento da minha chamada.

O quintal,

as árvores-penumbra,

continham a sombra

que me seguia,

quase réstia de mim.

A janela abriu-se,

nem terão sentido

os meus passos.

(fonte da imagem:

http://junkpit.net/2011/freehand-flinders-street-at-night-colour-and-black/)

(publicado no blogue 77 palavras de Margarida Fonseca Santos)

domingo, 9 de agosto de 2015

Algumas faculdades


Foi-se aproximando o tempo das letras.
Letras,
mirando atalhos,
fixando-se num poente
em que a dor já nem se escreve.
As letras, serpenteando,
indagam o traço de união,
o hífen que as torne palavras,
[onomatopeias servem].
Letras,
que as marcas renovam,
travestindo-as
num ritmo cigano,
entre palmas, sapateado:
grave, agudo ou circunflexo,
cedilha,
“nada se perde…
tudo se varre
pelo tempo fora”.
Sim,
foi chegando a era das letras,
que se engolem,
se ignoram,
em sms efémeras.

("Rega a tua vida de saber, também.
Olha mais para o belo, sabe escassamente
o que os outros dizem. Deixa que a arte 
te afunde e te abençoe."
Fala de Demóstenes a Péricles,
ainda na Democracia) 

(imagem de Francisca Torres, 
blogue 77 palavras de 
Margarida Fonseca Santos)